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Mais um Carnaval se aproxima. As ruas começam a ganhar cor, os grupos afinam os instrumentos, os blocos se organizam. Mas, para alguns trespontanos, o Carnaval não é apenas uma festa de quatro dias. É uma vida inteira.
O Canal UltraNativo conversou com o músico trespontano Beto Maciel, que em 2026 completa 50 anos de Carnaval. Meio século de desfiles, bastidores, trio elétrico, orquestras e memórias que se misturam com a própria história da folia em Três Pontas. E a história começa antes mesmo dele entender o que era Carnaval.
Um menino na bateria do Serrote
“Minha história com o Carnaval começou em 1974”, conta Beto. O pai, Airton Maciel, desfilava na bateria do Clube Recreativo Serrote. O menino ia junto, ainda pequeno, para assistir aos ensaios na sede do clube. Em 1976, aos 9 anos de idade, veio o primeiro desfile independente na Escola de Samba Serrote.
Mas o que mais marcou não foi apenas a avenida. Depois do desfile, enquanto a cidade ainda vibrava, ele ficava ao lado do pai, ouvindo as conversas dos presidentes das escolas no Bar Marabá, no centro. Ali se falava de enredo, de carros alegóricos, de samba-enredo, de estratégias.
“Eu vivi toda essa esfera maravilhosa. Participei dos bastidores”, lembra. Era ali que nascia algo maior do que a fantasia infantil. Nascia uma identidade.
Quando Três Pontas era um dos melhores carnavais de Minas
Beto fala de uma Três Pontas que mais do que respirava Carnaval. “Era um carnaval de muito brilho. Os hotéis ficavam lotados. Parentes vinham de outras cidades, alugavam casas só para passar o carnaval aqui.”
O Carnaval começava às 13h e só terminava às 5h da manhã. Em 1981, a cidade chegou a ter sete escolas de samba, divididas entre Grupo A e Grupo B. Além dos desfiles, havia Carnaval no Clube Trespontano, no Clube do Operário, no Garrafão, no Rancho dos Acadêmicos do Samba, na Buxarella.
Cinco salões lotados. Sete escolas. A folia tomava a Praça da Fonte, a Praça Cônego Victor, a Praça do Centenário. Um fluxo de gente que não parava.
“Três Pontas teve o privilégio de ter o título de um dos melhores carnavais de Minas Gerais”, recorda.
A TV Globo mostrava flashes das cidades de Belo Horizonte, Ouro Preto, Caxambu, Poços de Caldas. E lá estava Três Pontas.
A força da música ao vivo
Naquela época, Carnaval era sinônimo de orquestra. Instrumentos de sopro, músicos tocando 100% ao vivo, clubes contratando grandes formações. Para muitos músicos da região, aquele era o 14º salário.
“Era obrigatório ter música ao vivo. Não tinha os recursos de hoje. O músico tocava de verdade.”
E Beto cresceu nesse ambiente.
Um pai, uma guitarra e uma herança
Ao falar do pai, a voz muda. “Meu pai, Airton, tem uma representatividade fantástica para mim.”
Beto diz que ainda na gestação já ouvia os solos de guitarra do pai ensaiando para uma banda chamada Jota Massini, em São Gonçalo do Sapucaí. Anos depois, com 10 anos, conheceu os bastidores de um baile no Clube Serrote. “Meus primeiros acordes, minha primeira música, tudo devo a meu pai.” A herança não foi apenas genética. Foi vivida.
De folião a músico profissional
O salto aconteceu em 1984, em São Gonçalo do Sapucaí, na pizzaria Chopp Center, com o grupo Samba Libre. Pela primeira vez, ele não estava apenas curtindo. Estava trabalhando.
Depois vieram os trios elétricos em Três Pontas, entre 1985 e 1990. Abertura oficial do Carnaval, desfile das escolas, retorno do trio descendo a avenida até a Praça Cônego Victor, baile até às 4h da manhã e três matinês a partir das 14h.
“Era uma multidão.” Ao todo, foram 24 carnavais tocando como músico profissional — em palcos centrais de prefeituras, em salões de clubes, em trios elétricos.
Dois carnavais inesquecíveis
Entre tantos, dois marcam o coração. O primeiro, em 1976, o menino de 9 anos desfilando pela primeira vez.
O segundo, em 2005, quando foi jurado do desfile das escolas de samba. A rivalidade saudável entre a Escola de Samba Serrote e a Estudantes do Samba. A responsabilidade de julgar.
E o desfecho: o Serrote campeão. “Foi uma emoção enorme. Graças a Deus, ver a minha escola campeã.”
O que nunca pode acabar
Para Beto, a essência do Carnaval trespontano está nas escolas de samba e na figura do boi. “Jamais será esquecido.” Mas ele também reconhece os novos tempos. O modelo mudou. A proposta é diferente. E ele faz questão de elogiar a equipe do Carnavaliza TP, que hoje organiza a festa.
“Está desenvolvendo um bom Carnaval, com proposta diferente, mas muito organizado. Está no caminho certo.” Arrastões, shows, Pracinha do Centenário cheia, inovação acompanhando outras cidades. Porque tradição não é ficar parado. É continuar acontecendo.
Se pudesse falar com aquele menino…
Perguntamos a Beto o que diria ao menino de 9 anos descendo o Serrote, em 1976. Talvez ele não precise dizer nada.
Porque aquele menino ouviu as conversas no Bar Marabá. Prestou atenção nos enredos. Sentiu a vibração da bateria. Aprendeu com o pai. Cresceu dentro da música. E hoje, 50 anos depois, ele carrega na memória a prova de que Carnaval não é só fantasia e confete.
É herança. É identidade. É cidade. E enquanto houver alguém disposto a contar essas histórias, o Carnaval de Três Pontas nunca será apenas passado.

















