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Na Comunidade das Esmeraldas, em Três Pontas, a rotina sempre foi marcada pelo som das crianças chegando cedo, pelas conversas na porta da escola e pela certeza de que ali existia mais do que um prédio. Existia pertencimento. A Escola Municipal Nossa Senhora Aparecida sempre foi espaço de sonhos, aprendizado, dedicação e humildade. Ao longo de sua trajetória, formou alunos com compromisso, cuidado e valores, oferecendo educação de qualidade dentro de suas possibilidades, mesmo sendo uma escola multisseriada.
Por isso, quando a notícia do fechamento da unidade chegou à comunidade com apenas um dia de antecedência, o impacto foi imediato.
“Foi um choque, uma tristeza profunda”, relata Lilian Sarto, uma das representantes do movimento Escola Juntos, criado para defender a permanência da escola. Segundo ela, famílias e professores se sentiram desrespeitados. Não apenas pela decisão em si, mas pela forma como tudo aconteceu, sem diálogo prévio ou consulta à comunidade escolar.
Da indignação à união
O sentimento individual de indignação rapidamente se transformou em mobilização coletiva. Conversas entre pais, mães, responsáveis, ex-alunos e moradores revelaram algo em comum: ninguém aceitava perder a escola sem ao menos ser ouvido.
“O movimento nasceu quando percebemos que, se não nos uníssemos, a decisão seria simplesmente imposta”, explica Lilian. Hoje, o Escola Juntos reúne pessoas com histórias diferentes, mas ligadas pelo mesmo ponto: a escola como eixo da comunidade, como parte viva da história local.
Mais que ensino, um espaço de pertencimento
Para quem vive nas Esmeraldas, a Escola Municipal Nossa Senhora Aparecida nunca foi apenas um local de aulas. Situada ao lado de uma igreja, sempre contou com o apoio da fé e da própria comunidade, que intercede constantemente por seus alunos e incentiva as crianças a seguirem em frente.
A escola é acolhimento, identidade e esperança. Um espaço que ajudou a construir gerações inteiras e que hoje atende cerca de 55 alunos, sendo 12 novas matrículas previstas para este ano. Crianças pequenas, algumas com necessidades especiais, que dependem da proximidade, da rotina estável e do cuidado diário oferecido pela unidade.
Impactos que atingem toda a comunidade
Na visão do movimento, o fechamento não atinge apenas alunos e professores. Ele compromete toda a dinâmica da comunidade, fragiliza a educação, desestrutura famílias e enfraquece laços sociais construídos ao longo dos anos.
A proposta de transferência dos estudantes para a localidade de Vieira Campos (Bananeiras), a cerca de 20 quilômetros de distância, gera preocupação imediata. As famílias relatam receio quanto ao transporte, às longas distâncias, ao cansaço físico das crianças, à dificuldade de adaptação e ao impacto direto no rendimento escolar e na qualidade de vida.
Em um dos casos citados pela comunidade, a alimentação especial de um aluno é preparada diariamente pela própria mãe, que mora a menos de dois quilômetros da escola. A transferência tornaria essa rotina inviável e desumana. Fotos enviadas ao Canal UltraNativo mostram ainda a precariedade de ônibus rurais, com bancos rasgados e fiação exposta, o que intensifica a insegurança dos pais.
Incerteza, justificativas contestadas e falta de respostas
Outro ponto sensível é a ausência de orientações claras. Segundo o movimento, as famílias não receberam nenhuma informação concreta sobre a realocação dos alunos. Tudo permanece incerto, alimentando angústia e sensação de abandono.
A justificativa apresentada pela Secretaria de Educação foi a suposta falta de recursos, sob a alegação de que a escola seria privada. A comunidade rebate a informação, afirmando que a escola não é privada, pertence à comunidade e foi formalmente doada à Prefeitura, o que invalida o argumento.
Os moradores também questionam a prioridade dada à educação, uma vez que eventos festivos do município seguem recebendo investimentos e ampla divulgação, enquanto o futuro das crianças permanece sem respostas. Para o movimento, educação é base do futuro e não pode ser tratada como despesa secundária.
A voz que ecoou na Câmara
A mobilização chegou à Câmara Municipal de Três Pontas. Antes do início de uma sessão ordinária, moradores da Comunidade das Esmeraldas ocuparam o plenário de forma pacífica, com cartazes, questionamentos e relatos emocionados.
Vereadores ouviram as demandas e, conforme registrado oficialmente, o presidente da Casa se comprometeu a levar os relatos ao prefeito em uma reunião com o Executivo. Em encontros posteriores, foi informado que haveria reuniões com o prefeito e a Secretaria de Educação nos dias 5 e 6 de janeiro. No entanto, até o momento, segundo o movimento, nenhuma devolutiva concreta foi apresentada.
O que a comunidade espera agora é objetivo: a suspensão imediata da decisão de fechamento, a abertura de um diálogo verdadeiro, transparente e a construção conjunta de alternativas que mantenham a escola funcionando.
“Educação não é gasto, é investimento. Nossa escola deve permanecer aberta”, resume o movimento.
Posicionamento da Prefeitura
O Canal UltraNativo tentou contato com a Prefeitura de Três Pontas desde a última quinta-feira, buscando ouvir o posicionamento oficial do Executivo sobre o fechamento da Escola Municipal Nossa Senhora Aparecida. Nossa equipe esteve pessoalmente na Prefeitura, deixou contato e foi informada de que haveria um retorno, o que não aconteceu até o fechamento desta matéria.
Em entrevista concedida à EPTV, a Prefeitura afirmou que a decisão partiu do próprio município e foi baseada em relatórios técnicos da Superintendência Regional de Ensino de Varginha e da Vigilância Sanitária. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, entre os fatores considerados estão o funcionamento da escola em salas multisseriadas, apontado como prejudicial ao aprendizado, a aposentadoria de profissionais efetivos, dificuldades no atendimento especializado a alunos neurodivergentes e a necessidade de reformas estruturais no prédio, consideradas inviáveis no momento. A administração municipal informou ainda que todos os alunos terão vagas garantidas na Escola Municipal Vieira Campos, onde seriam atendidos de forma seriada, e que o transporte escolar passará por melhorias com a chegada de novos ônibus adquiridos por meio de emendas e financiamentos.
Ainda segundo a reportagem da EPTV, a emissora entrou em contato com a Secretaria de Estado de Educação, que informou que a decisão sobre o fechamento da escola foi tomada pela própria Prefeitura de Três Pontas. A Superintendência Regional de Ensino de Varginha, por sua vez, confirmou que realizou o acompanhamento da unidade por meio de inspetores escolares, apontando a necessidade de adequações para funcionamento conforme a legislação vigente, o que contribuiu para a decisão de transferência dos alunos.
O Canal UltraNativo reforça que permanece aberto, com responsabilidade e compromisso com a informação, para publicar qualquer novo esclarecimento ou manifestação do prefeito ou da administração municipal sobre o futuro da escola e os próximos desdobramentos dessa decisão.






