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Filho da terra, Dr. Tércio Veloso retorna à cidade para apresentar a trajetória do ouvidor português e refletir sobre a criação do território mineiro
No próximo dia 8 de outubro, às 15h, Três Pontas se torna palco de um importante resgate histórico. A cidade receberá a palestra do historiador Dr. Tércio Veloso, que apresentará os primeiros apontamentos sobre o ensaio biográfico “Cypriano Joseph da Rocha”, publicado pela Krauss Editora. O evento acontecerá na Associação Comercial de Três Pontas, com entrada gratuita.
Mas essa não é apenas mais uma palestra. É um retorno simbólico e carregado de significado: Tércio, trespontano de nascimento, formado pela Universidade Federal de Ouro Preto e hoje professor em Boa Esperança, retorna à cidade onde cresceu para, pela primeira vez, falar de história em Três Pontas, para Três Pontas.
Um nome que atravessa oceanos e séculos
Cypriano Joseph da Rocha foi um ouvidor português que atuou na Comarca do Rio das Mortes entre os anos de 1734 e 1737 — período em que Minas ainda era um território em construção. “Não é que Minas estava sendo ocupada… Minas estava sendo criada”, afirma Dr. Tércio. Para ele, o ouvidor é mais do que um personagem da burocracia colonial: é um elo vivo entre Portugal e o Sul de Minas, e um dos primeiros a traçar os contornos do que viria a se tornar essa região.
Cypriano era parte da baixa nobreza portuguesa, homens sem grandes títulos ou terras, mas que viam no Brasil uma chance de ascensão. Em tempos em que não havia governo central no Brasil, a Comarca se correspondia diretamente com Lisboa. O ouvidor era, portanto, uma autoridade que administrava, julgava e também explorava — o que, em muitos aspectos, o torna peça-chave na “invenção” do Sul de Minas.
“Alguns historiadores chamam o Cypriano de ‘inventor do Sul de Minas’. Ele não apenas transitou por aqui, mas deixou registros e traçou fronteiras quando nada ainda era oficial. Esse é o ponto que me fascina”, explica o palestrante.
A descoberta de um baú e a conexão com o presente
A palestra se baseia no livro do autor Antônio Andresen Guimarães, descendente direto de Cypriano. A obra surgiu a partir de dois tipos de documentos: os oficiais — guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal —, e as cartas pessoais trocadas entre Cypriano Joseph da Rocha e sua esposa, que foram encontradas em um baú antigo de família.
Essas cartas, segundo Tércio, são o coração do livro. “Elas revelam o lado humano desse homem em trânsito, vivendo no Brasil colônia, escrevendo para sua esposa que estava do outro lado do oceano. Ele fala da solidão, das incertezas, da distância. É como um nômade digital do século XVIII”, compara.
A história de uma terra ainda sem nome
Durante sua passagem pelo Sul de Minas, Cypriano Joseph da Rocha testemunhou rios sem nome, povos indígenas em tensão com os colonizadores, negros aquilombados vivendo à margem da sociedade, e espaços ainda indefinidos geograficamente. “Era uma fronteira aberta. Ele ajudou a construir o que hoje chamamos de Sul de Minas”, explica Tércio.
Um dos marcos simbólicos dessa construção é a cidade de Campanha, que começou como Arraial de São Cipriano, fundado pelo próprio Cypriano — uma das primeiras vilas da região, depois da criação de São João del-Rei e Tiradentes.
A ligação afetiva com Três Pontas
A escolha de Três Pontas como local da palestra não foi por acaso. Além da relevância histórica da região no contexto do Rio Verde — onde havia quilombos, como o do Campo Grande, e uma presença marcante de populações negras e indígenas —, há a ligação pessoal do palestrante com a cidade.
“Saí de Três Pontas aos 17 anos para estudar, morei 12 anos em Mariana, me formei, fiz mestrado, doutorado… mas nunca tive a chance de dar uma aula aqui. Voltar como historiador e palestrante, falando de um tema tão importante, é uma emoção difícil de explicar”, revela.
Tércio Veloso é professor de História no ensino básico, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Sul de Minas (IGHSM) e doutor em História pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), com pesquisas sobre os espaços urbanos mineiros setecentistas, a partir das fontes dos arquivos das câmaras municipais. Integra o grupo de pesquisa Justiça, Administração e Luta Social (JALS) do Departamento de História da UFOP e tem ampla experiência com arquivos históricos de Mariana e Ouro Preto. Publicou recentemente, com recursos do PROAP/CNPq, o livro “Terrenos Urbanos: os aforamentos de Vila Rica e sociedade mineira setecentista”, fruto de sua tese de doutorado, pela Paco Editorial.
Segundo Tércio, a palestra será mais do que uma explanação biográfica: será um convite à reflexão. “Quero propor um olhar sobre que tipo de espaço esse homem encontrou ao passar por aqui, e o que isso ainda nos diz sobre nossa própria identidade.”

Um circuito cultural entre continentes
A palestra integra a programação do projeto Caminho do Ouvidor – Cypriano Joseph da Rocha, uma ação que conecta cidades do Sul de Minas à história portuguesa por meio de literatura e memória. O circuito também passa por São João del-Rei, Poços de Caldas e outras cidades da região, sempre com representantes locais sendo convidados a dar voz às memórias desse personagem marcante da nossa história.
Serviço | Palestra Cypriano Joseph da Rocha
Data: 8 de outubro
Horário: 15h
Local: Associação Comercial de Três Pontas
Tema: O ensaio biográfico “Cypriano Joseph da Rocha”, de António Andresen Guimarães
Evento com entrada gratuita







