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De uma pelada entre amigos no Botafogo a um dos eventos mais simbólicos de Três Pontas: conheça a história do O Bota é Lindo, um coletivo que está transformando memória e identidade em festa
No bairro Botafogo, em Três Pontas, a memória anda pelas ruas, vibra na quadra e ecoa no som do tamborim. E neste domingo, 14 de setembro, essa memória ganha palco mais uma vez com o evento “O Bota é Lindo”, uma festa que é muito mais do que música: é história viva, resistência cultural e orgulho comunitário.
A programação começa às 13h no Campo do TAC, com atrações que prometem emocionar: Bateria O Bota é Lindo, Zero 35 e Hugo & Léo.
Mas para entender o que esse evento representa, é preciso voltar algumas décadas. Para isso o Canal Ultranativo conversou com Thiago Tavares, um dos integrantes do Coletivo.
Botafogo: um bairro onde tudo começa com samba e futebol
Nos anos 80, toda criança do Botafogo sabia: aos finais de tarde era dia de futebol. A quadra localizada na Praça Zumbi dos Palmares se enchia de trabalhadores ao final do expediente, e a bola rolava como tradição de pai pra filho. Thiago Tavares era um deles. “Meu pai jogava, me levava. Era a cara do nosso bairro”, lembra ele.
Em 2010, já adulto, Thiago ajudou a reacender essa chama: com amigos, voltou a organizar peladas e, depois delas, o pagode. Improvisavam tudo — até o cooler era um tambor de obra cheio de gelo. A cerveja vinha da vaquinha. O samba? Esse era gratuito e poderoso.
Foi no embalo dessa música e da confraternização, que também nasceu o time BECS – Botafogo Esporte Clube Samba, símbolo da mistura entre futebol e a cultura que sempre definiu o bairro.
“O Bota é Lindo”: de frase afetiva a nome de um movimento
Em 2023, quase dez anos após se distanciar das rodas antigas, Thiago reencontrou seu amigo Wesley Desim. Entre conversas e lembranças, surgiu a ideia: reunir os amigos do bairro para um futebol seguido de samba. A data foi marcada: novembro daquele ano. E foi durante a organização do encontro que o grupo se transformou em um coletivo.
A frase “O Bota é Lindo” surgiu naturalmente, em conversas, em grupos de WhatsApp, em falas de moradores emocionados. “Nem sei quem falou primeiro. Mas pegou. Porque é sentimento”, conta Thiago. Nascia oficialmente “O Bota é Lindo”.
Mais do que um nome, era uma identidade. Era um abraço coletivo num bairro que sempre foi berço de escolas de samba, blocos carnavalescos e movimentos culturais. Era, também, uma resposta à invisibilidade, ao esquecimento, à ideia de que periferia não produz cultura potente.
Quem faz o Bota ser tão lindo assim?
O coletivo “O Bota é Lindo” é feito por muitas mãos e corações. São moradores, músicos, advogados, servidores públicos, eletricistas, artistas, trabalhadores de várias áreas e amigos do bairro, unidos por um propósito comum. Entre os nomes mais atuantes estão: Thiago Tavares, Wesley Desim, Dr. Guilherme e Daiane Tomás, Clayton Jambo, Juliano, Guilherme Pedro, Felipe Peixe, Hugo Howard, Luan, Éderson (Dedê), Santiago, Moisés Du Moi, Josiel Nenego e tantos outros que somam na estrutura e no afeto.
“Todo mundo carrega cadeira, pensa roteiro, monta som, cuida do banheiro químico… A gente funciona na base da confiança e da escuta. Aqui, todo mundo tem voz igual”, afirma Thiago.
Uma festa que é mais do que festa
O evento deste domingo carrega uma missão: celebrar, resistir e devolver ao bairro o que ele representa para Três Pontas. Na programação, a presença do grupo Zero 35, a dupla Hugo e Léo e, claro, a Bateria O Bota é Lindo, formada por moradores e músicos da comunidade, e de outros bairros.
Mas há muito além da música. Moda, gastronomia, artes visuais, cultura negra e conexão afetiva fazem parte da experiência. “A música é a cereja do bolo. Mas a ideia é crescer para outros braços: projetos educativos, oficinas, rodas de conversa e, quem sabe, um museu da história do Botafogo”, compartilha Thiago.
Reconhecimento e pertencimento: da quadra à Semana da Consciência Negra
Pela segunda vez, o evento integra a programação oficial da Semana da Consciência Negra, com apoio da Prefeitura de Três Pontas. Um reconhecimento simbólico e estrutural da importância do movimento.
“Sem o apoio do poder público, seria impossível crescer nesse nível. A prefeitura tem dado suporte com estrutura, segurança, som, articulação. Isso é essencial para valorizar a cultura periférica e preta da nossa cidade”, reconhece o coletivo, agradecendo nominalmente o prefeito Luisinho, o vice Maicon Machado, Pierre e o próprio Dedê, que atua dentro e fora do coletivo.
O futuro é logo ali: carnaval, museu, sede própria
Entre os sonhos do coletivo estão a criação de uma associação formalizada, uma sede física no bairro, uma bateria para o carnaval de 2026 e um museu comunitário que preserve a história do Botafogo. Para isso, toda a renda arrecadada neste evento será revertida para a estruturação da associação e compra de instrumentos.
E já tem data marcada: no dia 20 de novembro, feriado da Consciência Negra, a quadra volta a ser ocupada com uma programação ampliada, incluindo rodas de conversa, gastronomia e arte.
Quando o Botafogo fala, Três Pontas escuta
“O Bota é Lindo” é mais do que uma frase bonita. É um símbolo. Um grito de orgulho. Uma roda que gira há décadas e que agora encontra, finalmente, o centro de luz que merece. Um bairro que pulsa, que forma, que inspira.
“Queremos mostrar de onde viemos e manter essa história viva. O Bota é Lindo é isso: resistência, cultura e amor ao nosso chão”, resume Thiago. E se você ainda não conhece esse movimento, está na hora de conhecer.
Programação O Bota é Lindo – 14 de setembro
Local: Campo do TAC, Três Pontas
Horário: A partir das 13h
Atrações:
- Bateria O Bota é Lindo
- Zero 35
- Hugo & Léo
Estrutura: Praça de alimentação, banheiros, bar e segurança
Ingressos: com comissários e via Instagram oficial


















