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Ao som de 84 badaladas dos sinos da Matriz, cidade homenageia o artista que cresceu entre suas ruas, fez história na música brasileira e transformou Três Pontas em parte de um legado que atravessa gerações.
Nesta segunda-feira, Três Pontas acordou ao som de uma homenagem especial. No coração da cidade, os sinos do Santuário Diocesano de Nossa Senhora d’Ajuda tocaram 84 vezes. Uma badalada para cada ano de vida de Milton Nascimento, o eterno Bituca.

Na Praça Cônego Victor, a música também tomou conta da manhã. A Corporação Musical Luiz Antônio Ribeiro participou da celebração, que contou com a presença de estudantes e apresentações de músicas que ajudam a contar a história de um dos maiores artistas brasileiros.
Era mais do que uma comemoração de aniversário. Era a cidade reconhecendo, em forma de música, a trajetória de um menino que cresceu ali, entre famílias, amigos, ruas e encontros que ajudaram a construir sua identidade musical.
Afinal, antes dos grandes palcos, dos discos históricos e do reconhecimento internacional, existiu um menino chamado Milton. E foi em Três Pontas que boa parte dessa história começou.

O menino que encontrou em Três Pontas o seu lugar no mundo
Milton Nascimento nasceu em 26 de outubro de 1942, no Rio de Janeiro. Ainda muito pequeno, após perder sua mãe biológica, Maria do Carmo, foi adotado por Josino e Lília Nascimento, que o levaram para Três Pontas, no Sul de Minas Gerais.
Foi na cidade mineira que recebeu o apelido de Bituca, que se tornaria conhecido por admiradores de sua música em diferentes partes do planeta.
A infância foi marcada pelo contato com a música. Ainda criança, Milton ganhou seus primeiros instrumentos, entre eles uma pequena sanfona. Aos poucos, foi descobrindo melodias, sons e possibilidades que se transformariam em uma vocação extraordinária.
A convivência com a família Tiso também seria determinante. Foi em Três Pontas que Milton construiu uma amizade com Wagner Tiso, músico e compositor que se tornaria um dos seus principais parceiros artísticos.
Juntos, participaram de conjuntos musicais e tocaram em bailes da cidade. Entre eles estava o Luar de Prata, grupo formado na juventude, quando a música já ocupava um lugar central em suas vidas.
Milton também trabalhou na Rádio Clube de Três Pontas, ampliando seu contato com o universo musical.
Naquele momento, ninguém poderia prever a dimensão que sua voz alcançaria. Mas as raízes de uma das trajetórias mais importantes da música brasileira já estavam sendo formadas.
De Três Pontas para o mundo: o nascimento de uma estrela
Em 1963, Milton mudou-se para Belo Horizonte. Na capital mineira, encontrou outros jovens apaixonados por música, como Márcio Borges, Lô Borges e Fernando Brant.

Esses encontros dariam origem a composições, amizades e a uma maneira de fazer música que mudaria para sempre a história da cultura brasileira.
O reconhecimento nacional ganhou força em 1967, quando Milton apresentou Travessia, composta com Fernando Brant, no Festival Internacional da Canção.
A música conquistou o segundo lugar, enquanto Milton recebeu o prêmio de melhor intérprete.
A partir dali, sua carreira ganhou projeção nacional e internacional. A voz que havia começado a se desenvolver em Três Pontas passaria a ser ouvida em diferentes países, aproximando a música brasileira de artistas e públicos de todo o mundo.
Clube da Esquina: quando a amizade se transformou em história
Em 1972, Milton Nascimento e Lô Borges lançaram o álbum Clube da Esquina, considerado um dos discos mais importantes da música brasileira.
O projeto reuniu músicos e compositores ligados a Minas Gerais, como Wagner Tiso, Beto Guedes, Fernando Brant, Márcio Borges e Toninho Horta.
Mais do que um disco, o Clube da Esquina representou uma forma singular de criar. Suas canções misturavam influências da música brasileira, do rock, do jazz e de diferentes tradições musicais.
A amizade, a liberdade, a juventude, a esperança e as transformações sociais apareciam nas letras e melodias.
Décadas depois, o álbum continua sendo descoberto por novas gerações e admirado por músicos brasileiros e estrangeiros.

Para Três Pontas, essa história possui um significado ainda mais profundo. Dois de seus grandes talentos, Milton Nascimento e Wagner Tiso, ajudaram a construir um movimento que se tornou patrimônio afetivo da música nacional.
As canções que atravessaram gerações
Poucos artistas brasileiros conseguiram construir um repertório tão marcante quanto Milton Nascimento.
Travessia abriu caminhos. Maria, Maria tornou-se um símbolo de força e resistência. Canção da América passou a acompanhar encontros, despedidas e reencontros, transformando-se em uma das grandes referências musicais sobre amizade.
Coração de Estudante, parceria com Wagner Tiso, ganhou força como símbolo de esperança e tornou-se especialmente associada ao período de redemocratização do Brasil.
Outras composições e interpretações, como Ponta de Areia, Clube da Esquina nº 2, Nos Bailes da Vida, Caçador de Mim, Fé Cega, Faca Amolada e Encontros e Despedidas, também marcaram sua trajetória.
São músicas que ultrapassam o tempo. Canções que acompanham histórias de amor, lembranças familiares, movimentos sociais e momentos importantes da vida de milhões de brasileiros.
A obra de Milton também esteve ligada à defesa da liberdade. Durante a ditadura militar, o artista enfrentou a censura, especialmente em trabalhos como Milagre dos Peixes, de 1973, que se tornou um importante registro de resistência artística.

1977: o dia em que Milton levou grandes nomes da música brasileira para Três Pontas
Entre os acontecimentos mais marcantes da história cultural de Três Pontas está o lendário Show do Paraíso, realizado em 30 de julho de 1977.
Naquele ano, Milton Nascimento reuniu amigos e grandes nomes da música brasileira na Fazenda Paraíso, proporcionando à cidade um encontro que entraria para a história.
Entre os artistas participantes estavam Chico Buarque, Clementina de Jesus, Gonzaguinha, Fafá de Belém, Francis Hime, Wagner Tiso e Beto Guedes.
O espetáculo gratuito atraiu uma multidão e ficou conhecido como o Woodstock mineiro, em referência ao famoso festival realizado nos Estados Unidos.
Era um momento especial da música brasileira. E Milton escolheu justamente Três Pontas, a cidade de sua infância, para reunir tantos talentos.
O evento permanece na memória cultural do município e se tornou uma das grandes referências para a criação do Festival Música do Mundo, décadas depois.
Festival Música do Mundo: uma história que continua sendo contada
Em 2009, Três Pontas recebeu a primeira edição do Festival Música do Mundo, idealizado pela jornalista e produtora cultural Maria Dolores, autora da biografia Travessia: A Vida de Milton Nascimento, lançada em 2006.
O festival nasceu inspirado na memória do Show do Paraíso e no desejo de valorizar a riqueza musical da cidade.
Milton Nascimento e Wagner Tiso foram homenageados e participaram da curadoria daquela primeira edição, que reuniu artistas como Ivan Lins e Tom Zé.
Ao longo dos anos, o festival fortaleceu sua ligação com a história de Bituca e com a produção cultural trespontana.
Em agosto de 2026, depois de uma década sem edições, o Música do Mundo voltou a movimentar Três Pontas, reunindo artistas, músicos, famílias e visitantes em uma grande celebração da cultura.

A programação contou com apresentações de Beto Guedes, Nando Reis, Chico Chico, Banda Saideira e Ânima Minas, entre outras atrações.
Um dos momentos emocionantes aconteceu quando Wagner Tiso subiu ao palco durante a homenagem a Milton e interpretou ao piano Maria, Maria e Coração de Estudante.
A edição também celebrou os 50 anos do álbum Geraes, lançado em 1976, cuja capa apresenta um desenho feito por Milton com referências à paisagem de Três Pontas.
O festival mostrou que a ligação entre Bituca e sua cidade continua viva, mesmo quando o artista não está fisicamente presente.
Uma carreira que conquistou o mundo
O reconhecimento internacional de Milton Nascimento foi construído ao longo de décadas de gravações, apresentações e parcerias com grandes artistas.
Entre os encontros mais importantes está o trabalho com o saxofonista norte-americano Wayne Shorter, no álbum Native Dancer, de 1974.
Milton também dividiu projetos e gravações com artistas como Elis Regina, Gal Costa, Mercedes Sosa e muitos outros nomes da música.
Em 1998, conquistou um Grammy pelo álbum Nascimento, na categoria de Melhor Álbum de World Music.

Em 2022, despediu-se dos grandes palcos com a turnê A Última Sessão de Música. O espetáculo final aconteceu no Mineirão, em Belo Horizonte, encerrando uma trajetória extraordinária de apresentações ao vivo.
Mas sua produção artística ainda reservava novos capítulos.
Em 2024, lançou Milton + Esperanza, em parceria com a cantora e contrabaixista norte-americana Esperanza Spalding. O trabalho recebeu uma indicação ao Grammy de 20
25 na categoria de Melhor Álbum de Jazz Vocal.
Aos 84 anos, Milton continua sendo uma referência para artistas de diferentes gerações, dentro e fora do Brasil.
A saúde de Bituca e o carinho de seus admiradores
Em 2025, veio a público o diagnóstico de demência por corpos de Lewy, condição neurológica que pode afetar a memória, os movimentos e outras funções do organismo.
Desde então, Milton tem permanecido afastado das aparições públicas.
Sua ausência no Festival Música do Mundo de 2026 foi sentida pelos admiradores. Ainda assim, o carinho do público esteve presente em cada homenagem.
Segundo a produtora Maria Dolores, a organização manteve contato com familiares do artista para que ele pudesse receber registros das apresentações realizadas em sua homenagem.
Três Pontas continua cantando Milton
As comemorações dos 84 anos de Bituca não terminam nesta segunda-feira.
Na quarta-feira, 28 de outubro, às 19h, a Casa da Cultura Alfredo Benassi receberá o sarau musical Nos Bailes da Vida em Três Pontas: 84 anos de Bituca.
A programação organizada pela Prefeitura de Três Pontas, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Lazer e Turismo, reunirá artistas locais em apresentações dedicadas à obra de Milton Nascimento.
A homenagem contará também com a participação anunciada de Telo Borges, músico ligado à história do Clube da Esquina.
Quem escreve esta matéria, eu, Mariana Tiso, também guardo uma lembrança muito especial de Bituca. Em 2012, tive a honra de recebê-lo em minha casa, acompanhado de sua banda, para um café da tarde regado a boas conversas e momentos inesquecíveis.
Mas essa é uma história que merece ser contada em outra matéria!


Por enquanto, fica o carinho, a admiração e o desejo de um feliz aniversário, querido Bituca! Que sua história e sua música continuem emocionando gerações. Por enquanto, fica o carinho, a admiração e o desejo de um feliz aniversário, querido Bituca!
O orgulho de uma cidade que faz parte dessa história
Para o Canal UltraNativo, contar a história de Milton Nascimento é também falar sobre a identidade cultural de Três Pontas.
Desde a criação do Canal, em 2015, a valorização dos artistas, das tradições e da memória trespontana faz parte de nossa essência.
Ao longo dessa trajetória, acompanhamos acontecimentos que ajudam a preservar esse patrimônio, como o Festival Música do Mundo e a tradicional Serenata dos Tisos, que, em agosto de 2026, completou 51 anos e contou com a participação especial de Wagner Tiso.
São manifestações que mostram como a música continua presente no cotidiano da cidade, atravessando gerações e aproximando pessoas.
E talvez seja essa uma das maiores contribuições de Milton Nascimento: mostrar que a arte pode nascer em uma cidade do interior e alcançar o mundo inteiro, sem perder a ligação com suas origens.
Nesta segunda-feira, quando os sinos tocaram 84 vezes, Três Pontas não celebrou apenas a passagem do tempo.
Celebrou a infância de um menino que descobriu a música, as amizades que se transformaram em canções, os encontros que fizeram história e uma trajetória que levou o nome da cidade muito além das montanhas de Minas Gerais.
Porque Milton Nascimento pertence ao mundo. Mas uma parte de sua história será, para sempre, trespontana.
Feliz aniversário, Bituca!


